domingo, 21 de agosto de 2011

Fim de Jaca?


Dois duendes pensando...
"Fim de Jaca por aqui."
"Pelo menos, por enquanto..."
"Aguardar, aguardar, aguardar..."

Texto e foto por Lara J. Lazo

Destino


Quando caminhamos estrada sem rumo, malgrado os pedregulhos nos digam SUMAM, mas permanecemos no caminho, sem destino certo e sem desvio previsto, o sol espreitando à beira mato, num sopro contínuo de um vento perdido, sentimos que o destino é o ato contínuo de seguir, seja por que caminho ir, apenas seguir..., vislumbrar uma distância que há de vir, sabe-se lá até quando, porém persistir... Eis o Verbo, nome do Destino!

Texto: Lara J. LAzo
Foto: Jatkoske

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Clathrus Ruber X Jaca



É quase Natal. Agora são 23:10 h. A reflexão toma meu ser e o meu tempo. Como enviar mensagens de Natal, quando se está encafifada?
O que aconteceu foi o seguinte...
Ontem, em pleno Estado de São Paulo, no Brasil, deparei-me com um Clathrus Ruber numa estradinha de terra. Esse musgo/fungo natural lá da Europa, se é que não estou enganada, estava ali, bem na beira da estrada, parasitando restos de madeira, folhagens e bambus podres. Credo ,estava repleto de moscas, como é natural a esta estranha espécie. Hoje, um novo "ovinho" já era visível.
O que estava fazendo aqui?... Não sei. Só sei que me encafifou.
Achei o "bichinho" nojento, sem falar no cheirinho de carne podre que emana.

Voltando ao tema deste blogger, a Jaca , continuemos...

Entre Jaca e Clathrus Ruber há algo em comum: além do cheiro forte, podem ser comidos.rsrsrs
O problema da Jaca é que todo mundo come, até quem não a quer engolir. Já, o segundo, são apenas assassinos psicopatas que vivem sós nas montanhas lá do outro lado do mundo, que comem. Isso dizem alguns criminalistas...

Tem louco pra tudo né?!
Os leitores desse blogger sabem a minha preferência, por pior que ela pareça. E você qual prefere?

(Texto e fotos: Lara Jatkoske Lazo)

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Momento Poeticonético

Manhã... A caneta pende num canto qualquer da sala, para enfeitar o ambiente; não diria enfeitar propriamente dito, mas... dar um toque. A internet já está conectada, enquanto o lindo sol desponta em sua tela de cristal. As névoas do fim da noite se despedem no fundo da área de trabalho. Um show pirotécnico de fótons ágeis!!! Um congestionamento de informações instantâneas que não se entendem. Sento-me diante do mundo e penso... Para aonde irei hoje? E um clique frenético, sei lá com qual dos dedos - é tão rápido que não é mister pensar nisso - deixa-me aqui e acolá. Essa sensação de aqui estar e ir simultaneamente, simulacro do processo mental imaginário, é essencial; tem-se o efeito colateral de ponte fictícia entre o real daqui e o real de lá. Avistam-se mares, montanhas, cidades... Tudo lá embaixo... Uma pausa para o café, enquanto a janela da sala ainda nem foi aberta. E assim a virtualidade do dia corre... As horas - essas são reais? - passam nem depressa e nem devagar. Mais um café.
Entardecer... A caneta pende num canto qualquer da sala. O sol se põe na tela mágica e o feiticeiro, o Homem moderno, continua horas a fio em seu próprio universo paralelo.
Lá fora, as estrelas brilham para quem?

(Texto: Lara Jatkoske Lazo)

terça-feira, 27 de maio de 2008

CHÃO


DEITO NA CAMA DE CONCRETO...

TEUS PASSOS NO MEU PEITO

ESTÃO MAIS PERTO

DO VAGO PORTO DE PEDRA

EM QUE TE ESPREITO


JÁ NÃO SEI SE VELEJO A CÉU ABERTO

OU SE MERGULHO NA ESPERANÇA

EM QUE ME DEITO.
Maria Fernanda Laurito

segunda-feira, 19 de maio de 2008

CAIU UMA JACA

Uma jaca caiu em minha cabeça,
mas isso não tem importância,
porque a inteligência só anda a cavalo.

DECIFRE OU CALE-SE!!!!!!!!!!

(Lara J. L)

sexta-feira, 25 de abril de 2008

SANTÍSSIMA TRINDADE


“Escutai!, se as estrelas acendem é por que alguém precisa delas?”

São três. E a lua por testemunha. Linhagem de tempos ancestrais, revelada pelo clarão oblíquo e fecundo. Irmãs nas sutilezas, servas das brumas, mestras nas artes da criação.
A noite escolhida a sua revelia ,manifesta-se. Encontram-se nos interstícios de dois raios de luar. Como três reis magos, magas, levam nas mãos quentes e perfumadas um anel de serpente, a imagem da virgem e versos de Maiakóvisky.
Despem-se. Na fonte, meio corpo imerso em água cristalina, mãos espalmadas de encontro ao firmamento, em oferenda, suspiram. Família sagrada fecundante. Emoções à flor da pele sob o toque lascivo do silêncio que fala.


(Maria Fernanda Laurito e Lara Jatkoske Lazo- leia na íntegra no livro Emoções em Família - foto de lançamento- Livraria Cultura)

segunda-feira, 24 de março de 2008

O Que?

O que acontecerá, quando todo o negro do universo for preenchido de luz? O universo será tão branco, tão brilhante, que encolherá?!

Esse pensamento saiu na lágrima de um filósofo, na feliz curiosidade de um astrônomo, na poética simplicidade de um estudante e na sensível melancolia de um poeta!


Escatologia do universo!


(Texto: Lara J. Lazo)


ANÁGUAS DE MARÇO



Por debaixo da cascata zodiacal, como movimentos sinuosos da dança dos dervixes, não há membros. Então, o que é que a baiana tem??? Vatapá os seus olhos irmão e a bôca amarrada de visgo de jaca murcha. Os tempos são outros...Marte revela-se por trás do transparente tecido, rasgando as vísceras e as rendas do bicho papão que não papa mais. O bicho papão virou bicho pidão. A padronagem mental fru-fru rosa choque do grupo de "mumanos " , nestes tempos que correm, anda cambaleante. Quem tem não quer ter, quem é não quer ser. E ninguém é nada de nada. Anágua engomada, que disfarça a forma velada do não membro. Faliu o conceito de estar. Ficou a proposta de ser.

Maria Fernanda L. e Lara J. L.

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

ZEITGEIST (O espírito da época)


Estou lendo um livro, quase acabando e adorando, pra usar uma palavra adequada. Chama-se DEUS, UM DELÍRIO, do Richard Dawkins. Eu já tinha lido há décadas O GENE EGOÍSTA. E gostado.

Somos uma miscelânia incompreensível, uma experiência do absurdo. Há zilhões de teorias sobre nossos inner sides e out sides, de tudo quanto é jeito modelito e esfera. Teóricos, estudiosos, cientistas, religiosos e leigos metidos a besta vomitam lava incndescente sobre: - quem somos nós? Quem sou eu? (...pra ter direitos exclusivos sobre ele...) o que nos espera? O que isso, aquilo, aquilo outro????? Álvaro/Pessoa, pelamor, cadê aquele poema em linha reta??????... “Arre, estou farto de semideuses! Onde é que há gente no mundo?”

Fala-se o que se quer. Escreve-se idem, e eis-me aqui pra provar isso. Eu volto lá em cima, no livro: nós humanos já somos por demais folgados, espaçosos nas idéias, atropelamos a possibilidade dos outros, ficamos dando receita, subimos no pico do Aconcágua letral (como diria Manoel de Barros), pra lá de cima ficar dando lição de moral , e ainda por cima acolhemos religiões e um deus , como diz Richard, “ ciumento, controlador, mesquinho, genocida, misógino, homofóbico, infanticida, filicida, racista, megalomaníaco, sadomasoquista e malévolo?” Me poupe como diria Vânia. Allons enfants, o jogo é jogado, a gente joga o jogo, porém, dá pra ser feliz sem nada disso.

Estou lendo Deus um Delírio. E estou adorando.

Maria Fernanda

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

DELÍRIO DE HISTÓRIA

Pegamos o carro e voamos para uma praia deserta e incerta num local maravilhoso. Praia deserta de lobos e repleta de silêncio gostoso e rico. Arrancamos os sapatos e corremos as soltas, sem “lenço, sem documento”. A tarde exigia concentração... Nuvens brandas pairavam cismadas. Caímos na água, sem preocupação com hora e obrigações. A única obrigação era simplesmente esquecer do mundo, esquecer de si .

As ondas iniciaram um diálogo gentil. Quando nos demos conta da conversa, vimos-nos sobre a concha de Afrodite, num aquário literário. O sol queimava as idéias, fluíam versos clássicos. Num delírio vendaval, redemoinho escancarou Atlântida, o sonho perdido de Platão. Em túnicas de catassol, visões navegantes, daquele povo imerso na escuridão da história, festejavam a ilusão dos vivos. Permanecíamos na concha sob os olhos de Netuno e seu tridente. O filósofo sonhador o seguia. Sentimo-nos como simulacros de um passado insólito. Havia peixes de todas as formas e cores beijando ou rasgando as túnicas. Nossa, de repente a concha se choca com a estátua de Cleópatra!!!! O que estaria fazendo a lembrança da rainha poderosa imersa nestas águas tão distantes de Alkhemit? Tornara-se ela a rainha do mar? Salue, Júlio César! Agora és marinheiro? Suas sandálias também estarão por aí, calçando histórias no tempo? Após o solavanco da batida, encontramos, agitada, no remelexo das águas, a lâmpada de Aladim. Um peixe contou-nos que, inicialmente, a lâmpada pertenceu a Gilgamech, o primeiro construtor da Arca. Noé o plagiou... ou tomou a sua barca? Pegamos a lâmpada e a esfregamos. Tirando a tampa, encontramos um poema de Fernando Pessoa, O Último Sortilégio. Redemoinhos surgiram fervorosos... Vapores vulcânicos abriram alas na imensidão aquática. Atlântida ficou em polvorosa. Túnicas nervosas corriam sem salvação. Tempestade de H2O... Sal nos olhos. O Sortilégio estava concluído. Atlândida foi sumindo, calando-se num burburinho de bolhas de água espalhafatosas. O círculo mágico fora rompido. Estarrecidos, víamos a história fugir de nossas vistas. A concha da deusa se quebrou e caímos num poço sem fim... Náusea das alturas... Ishtar deu um grito brilhante! Babel despencou!

Caímos do carro solar e acordamos, numa parede, na postura hieroglífica na cena de Nefertiti com Amenhotep IV sob os raios de Aton.

Fecha-se o livro.

Cala-se a história.

Morrem os mundos.

Agora, é com Shiva!

(Texto: Lara J Lazo)

UAI NO DNA



Eu nem sei direito o que eu quero dizer mas foi um dia incrível na pedra. Melhor, dentro do riozinho forrado de pedras nas pedras de São Tomé. É possível ficar em transe em meio ao trânsito. As vozes vinham e iam, ao longe um violão, uma mudinha de samambaia e sombras e sol. Havia harmonia. Num canto, no poço, a evangelização light da conversa civilizada, amena...a um palmo dali, diria alguém - a dois passos do paraíso -, rapeizes “queimando o rato” na fala dos mineiros de Claudio. Na mais santa mineira paz. Hipocrisia? Blindagem moral? Faz de conta que não to te vendo? Nada disso. Apenas o shangri-lá, aquilo que se espera, o respeito no peito, o acolhimento, o entendimento de que somos muitos, vivemos de mil maneiras, gostamos de inúmeras coisas, temos infinitas alternativas. A pinga que tu gosta pode se chamar segrêdo, azulão, jesus tá chamando...pode ter docê, bala, mato, vísque, o que é que muda? A pegada pode ser outra mas a vontade é a mesma: a gente tá comungando. Estamos no mesmo rio, a nascente é a mesma. Quem é que disse que tem de ser diferente?


Maria Fernanda

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

À CENSURA, AOS INSENSATOS, OGROS E CIA.


As palavras,

se nos foram podadas,

azar a quem as podou,

porque a poda só as fará florescer com maior vigor.

As palavras,

se foram cortadas pela raiz,

azar a quem as cortou,

porque assim entrarão para a história.

(Lara J Lazo)

FATO VERÍDICO E RIDÍCULO: UMA PÉROLA UNIVERSITÁRIA PARA RIR OU CHORAR.



Era um dia normal de aula... Saí apressada da sala, com um monte de atividades extra-classe para realizar. Inesperadamente, como uma fruta que despenca do pé na sua cabeça, um indivíduo conhecido parou-me no corredor. Não se tratava de um aluno. Com ar de soberba, o “sumo sacerdote do saber” passou a me cravar com perguntas idiotas. Com certeza não tinha nada de bom para fazer. As mais idiotas foram: - Por que você está disseminando Comunismo na faculdade? Qual a sua verdadeira intenção aqui?” Você faz parte de algum grupo mal intencionado infiltrado na universidade?

Até aí, não fazia idéia do que o indivíduo estava me acusando. Então, surpresa, perguntei: - O que foi que fiz?

Ele, revoltado, mas com um ar contido de superioridade, respondeu-me com outras interrogações: - Posso saber por quê você está traduzindo literatura russa para a revista bilíngüe de tradução, Modelo 19? Qual a sua verdadeira intenção nessa universidade? É fazer baderna comunista? - A minha surpresa foi então ainda maior! O que aquele maluco estava dizendo?! Eu não sabia se chorava, se ria até cair ou se escrevia uma crônica sobre as pérolas da democracia universitária. Ainda, quase perdi a noção temporal: “Será que estava na época da ditadura?” Perguntas tão estultas assombram e estonteiam!

Bem, só pude responder-lhe com outras questões: - Você sabe ler? Conhece a poesia de Anna Akhmátova? Sabe do que está falando? Você, pelo visto, não sabe ler coisa nehuma.

O indivíduo, com ar imbatível - e ridículo- , disse que não queria ver mais aquele tipo de “coisa” na revista de tradução de literatura e eu, claro, respondi que traduziria o que quisesse e que não seria ele e nem ninguém que iria me atrapalhar com tamanhas besteiras.

Só havia publicado a tradução de um poema de Anna Akhmátova, mais nada. Não havia intenção política, ideológica, ou qualquer outra! Era apenas a tradução de um excelente poema russo. E, onde estava a democracia? Que direito tinha aquele indivíduo tolo e soberbo de me esgotar a paciência com tamanho disparate? Ele era tão estulto, que não conseguiu nem compreender que a poetisa criticava o comunismo - seus poemas foram proibidos na Rússia comunista, se eu não me engano, de 1925 a 1952..

Esse tipo de visão não poderia jamais persistir, principalmente dentro de uma universidade. Eu não fazia idéia de que traduzir literatura russa ainda fosse sinônimo de disseminação comunista. Cretinos os que assim vêem as coisas! Retrógrados e ridículos!

Claro que não parei com as traduções e a revista ganhou outra poesia de Akhmátova!

Os tolos que se calem ou, pelo menos, não falem besteiras como essas!

(Texto: Lara J. Lazo)

(Foto: Anna Akhmátova /Aнна Ахмaтова )


domingo, 23 de dezembro de 2007

O murmúrio das calcinhas




Foi como tinha de ser. Tempo de paixão, tempo de maturação, tempo de infernização , tempo de revertério e tempo de transubstanciação. Pelo meio desses intermináveis ãos, todas as filigranas que entopem de dinheiro os bolsos dos analistas . Mas a gente nunca fez análise. A gente fazia diálise, porque nossos rins, depositários da energia vital, o prana cósmico, viviam dando tilt de tanto que a gente discutia. Discutia sobre o quê? As cretinices homéricas de todo sempre amém: religião, política, raça e família. Uma coisarada desproporcional ao tamanho de nossa mente, que só descansava quando nos voltávamos para as miticôndrias. Foi muito lenha queimada numa auto-combustão. Deu no que deu. Alguém apertou o pause. Péra aí, vamos repaginar, upgrade nas veias, pra até um dia, até talvez, até quem sabe, cruzarmos de novo. “Eu não sei em qual rua minha vida vai encontrar a sua”... once more.
Sobrou o murmúrio das calcinhas. “Por onde anda ele?” “ Cadê aquela mãozona que me maltratava?” “ Onde foi parar aquela voz me pedindo pra sumir?”
Sempre sobra encanto em algum canto. Talvez dentro de uma gaveta, insuspeita, matéria aparentemente inerte. Os físicos que se deleitem: dentre os multiversos, podem haver versos, ainda que tudo tenha se decomposto, mercúrio estilhaçado no chão... sempre haverá uma peça íntima tentando reunir os fragmentos, ingênua, bobinha. Ah...se a vida fosse apenas uma calcinha...


Maria Fernanda

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

A FACE DE UM DEUS QUALQUER E O FUNDO DA CAVERNA




Quase tudo são sombras em Ogrolândia.

Saio para dar uma volta, parando aqui e acolá para recolher impressões. Esbarram em mim seres doentes do corpo, do espírito, do intelecto. Há um único verbo impresso no código milenar da língua: RECLAMAR. Reclama-se das mazelas físicas, das depressões, de filhos, maridos amigos, políticas, dos outros. E nas faces, - aquelas que seriam a imagem e semelhança desse deus judeu da guerra que a bíblia vende, - um ar sinistro de rancor e desilusão. Deus deve ser pessimista, revanchista e feio. E também reclama-se dele. Cobra-se. Acusa-se. Gente acostumada a freqüentar templos e que nada aprende, nada percebe do essencial da existência.
As pessoas movem-se na escuridão, como se vivessem no fundo da caverna. O único ruído vem do roçar das asas dos morcegos. O breu assume inúmeras formas: pode-se encontrar amigos de infância empinando o nariz, ou por acharem-se importantérrimos em suas funções aldeãs, ou por terem ficado amigos do Ogro Mór e seu séqüito. Pode-se receber uma resposta seca ao telefone ao se pedir uma informação, como se a Ogra- Li do outro lado pudesse vislumbrar o riso que provoca com seu estilo mastodonte e sem educação. O reino de Ogrolândia , está em metamorfose.

Há explicaçãoes pra isso?
Of course, dears! (Claro que sim). Orolândia jaz circundada por montes. Geograficamente, portanto, está na categoria dos vales. Já dizia um sábio: a montanha separa. O reino vive, pois, à parte do mundo. Como um Shan-gri-lá às avessas. Shan-gri-lá, porém, tinha uma vasta biblioteca, e seus moradores sabiam deleitar-se com a essência do espírito humano e suas criações. Entupiam os olhos de belezas e a mente de preciosidades. E o seu viver era uma elegância só. O requinte da existência profícua e abundante.
Ogrolândia faz o caminho inverso: a balbúrdia pirotécnica freqüente dos rojões, parece querer anunciar aos quatro ventos: aqui falta cultura, falta leitura, faltam discussões brilhantes, idéias reconfortantes, espaços de crescimento interior...mas temos baldes de crianças de recuperação na escola(catastrófico), temos pão cascudo, circo armado , galpão de recreação e outras cositas más, e cultos, é claro, pra todos os gostos, de todos os sabores. É claro que o perfil de Ogrolândia é perfeito para as grandes reflexões religiosas. Mais que perfeito.

Saí para dar uma volta. E voltei matutando. A percepção do alto do castelo, de dentro do mosteiro, se confirma quando se sai à rua. Mas quando a atmosfera está densa demais, há que se esperar o temporal. Quem sabe, depois da terra arrasada, da chuva que lava, do afogamento, sementes de mostarda brotem...na caverna de um deus sem face.


Maria Fernanda

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007


“Aconteceu um prodígio durante a minha temporada escolar; e aconteceu tão repentinamente que ainda considero tal hora como uma hora de revelação. Foi num bonito dia de amena primavera, quando o ar estava repleto de cantos de pássaros e as cegonhas recompunham seus belos ninhos nos telhados dos casebres de barro. As águas haviam descido e novos rebentos verdes emergiam do chão. Em todos os jardins que tinham recebido sementes plantas brotavam. Era um dia que convidava à aventura, e era impossível permanecermos sentados quietos na velha varanda raquítica de Oneh onde os tijolos se desmantelavam ao menor contato. Eu estava riscando um destes símbolos perpétuos – letras a serem cortadas em pedra e traçando ao lado deles os sinais abreviados usados para serem escritos em cima de papel – quando de repente certa palavra esquecida de Oneh, determinado fulgor estranho dentro de mim, falou e deu vida àqueles caracteres. Os desenhos se tornaram uma palavra, a palavra uma sílaba e a sílaba uma letra. Quando juntei desenhos a desenhos novas palavras irromperam – palavras vivas, inteiramente distintas dos símbolos. Qualquer rústico pode compreender um desenho; mais dois juntos só têm sentido para um literato. Creio que quem quer que haja aprendido a escrever e a ler sabe que é que estou querendo dizer. Para mim tal experiência se tornou mais fascinante do que arrebatar uma romã o cesto de um vendedor de frutas; mais doce to que uma tâmara seca; tão deliciosa como para o sedento um bom gole d água.”

Mika Waltari em O Egípcio

A BARCA


A Barca transpõe as margens da lagoa... A imensidão escorre nas gotas brilhantes de sol.

A Barca corre, patina, desliza na solidão cristalina. Cristalina, nos Olhos-Que-Tudo-Vêem, templo do olho já morreu, jazigo de ouro nasce e permanece. Osíris, flor molecular, abre os braços e carrega a Barca nas Brumas de Avalon. Aquela múmia, à beira da lagoa, toma o posto de Ishtar, a deusa estrela, que some na ilusão solar. “Devolva as oferendas, deusa, que seu povo já morreu!” O Templo do Olho fechou as pálpebras aos brilhos de Amon e Aton. Ilusão atômica, pó-de-estrelas. A Barca corre dos papões de luz: buracos negros, trançados entre os átomos sinfônicos. Devastada a tradição, morrem as gigantes do deserto. Túmulos de história, não de homens. Mausoléus genéticos do mundo.

Gandhi é um sonho inatingível. A Guerra, a personalidade ilógica do homem.

Maiakovsky revoluciona! Akhmátova grita! Fernando Pessoa delira sabedoria... A Barca transpõe limites irreconhecíveis. Jackson Pollock dança Duncan em sua arte e o índio Dom Juan tem mais vida do que os vivos.

Elvis Presley e George Balanchine escandalizam os tolos.

A Besta segura a tocha.

E a Barca desliza...

Imita a eternidade em versos irrecuperáveis.

O Homem se virtualiza , não com a virtude, mas com a internet.

A natureza agoniza. O homem emburrece cada vez mais .

O Templo dos Deuses já morreu...

O Templo dos Homens está morrendo...

Pergunto: O que é a Barca?

Tempo.

Abarca o tempo...

Pergunto: Quem está na Barca?


(Autor: Lara J. Lazo - 11/12/07)

BAILE DE MÁSCARAS







Veneza, século XVIII. Aquele aguaceiro deslumbrante. Preciosidades arquitetônicas. Carnaval. Coladas às faces, máscaras de ourivesaria. Uma beleza. Em slow motion o cortejo feliniano cruza pontes e acena a sensuais gondoleiros de camisetas azul e brancas. O sol se põe ao fundo da cena italiana.
Espanta Barata, interior de São Paulo. Brasil, século XXI. Vinte e um? Desculpe o equívoco leitor amigo. Eu quis dizer século XII, com todo ar de medievalismo. Um charme a mais . Pois é, em Espanta Barata o Carnaval também dá andamento a suas alegorias patéticas. Ah, que deleite observar a movimentação das libélulas deslumbradas, dos Ogros decaídos, papagaios, periquitos, cágados e burros chucros na dança pelo “poder” nas próximas eleições. Repetem-se máscaras e fantasias. Tudo por dinheiro. “O povo? Que povo? Este “ pessoalzinho de merda que não tem onde cair morto?” – dizem os arquitetos de estratégias podres para estabelecer administrações igualmente podres, viciadas, falidas e anacrônicas.
Se você quer assistir a estas disputas o conselho é: fique na arquibancada. Sem pagar, é claro, porque o espetáculo é deprimente e não vale um tostão furado. Só vale pra gente refletir sobre o ridículo, o mal acabado, o palhaço, o boçal, o circo e a inquisição.
Em Espanta Barata, o tempo parou. Nada muda por aquelas bandas desde que o Big Bang se deu conta de si. E nós, os que por aqui humildemente observamos, nós os que temos atividade cerebral consciente, os que trabalhamos realmente pelo bem comum, nós os efêmeros e passageiros, nos tranqüilizamos . Manobras apodrecidas são para os sem capacidade de articulações inteligentes.
A gente fica assim, espiando de longe, ao largo, vendo as lagartas a devorar os próprios rabos(e os rabos dos outros). É uma jogatina sem igual, um alisa daqui, trucida dali, nem Sherazade conseguiria ser tão criativa em suas mil e uma noites. Personagens grotescos que rezam em benefício próprio pela cartilha da grana fácil e da pose embonecada.
O mais interessante de contemplar este processo é prestar atenção nas idéias brilhantes dos envolvidos, como por exemplo mandar uma carta cumprimentando o dono da quitanda porque ele colocou um cartaz na porta: “NÃO PONHA OLHO GORDO NO CHEIRO VERDE” . Ou então presenciar a instalação de uma comissão que vai averiguar quantas joaninhas tem pra cada pulgão nos pés de couve. Isso é de uma relevância tão fundamental que é de deixar a gente sem fala. Aliás, pelo resto da vida.
A nós, os humildinhos, os cientes de sua pobre condição humana esmagada sob o peso de milhões de vias lácteas, a nós realmente resta um olhar embevecido de compaixão a esta escória politiqueira desalinhada e vazias e os versos de Quintana: “estes que aí estão a atravancar o meu caminho, eles passarão...eu passarinho.”


Maria Fernanda

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

PEGA LEVE, IRMÃO!!!


IRMÃOS, estamos nos finais dos tempos, na beira do abismo... Tudo finda:

finda-a moralidade e finda-a ética;

finda-o recato e finda-o cinto-de-castidade;

finda-o saião, Pindamonhangaba (opssss)

finda-o-pó-de-café, finda a água-benta

finda-a polenta e finda-a calça de tergal do secretário;

findam-o fio-dental e o papel higiênico.


Já-que está tudo uma M_E_R_D_A (No blog não se pode dizer certas palavras, irmãos, então soletremos pausadamente), oremos:


- pela cesta-básica, que o amásio da cunhada do compadre do seu vizinho recebeu (um pacote de bolacha Marta; um suco Morto, mas não te Mato; um pirulito de Zoião e uma lata de Corumbá em conserva, com picles de salsichas emboioladas, quer dizer, embaladas a vá-cú-ooo)


JACA-GUEI


- pela visão político-ecológica, que fez brotar bolor verdinho e ácaros bem nutridinhos numa vasta coleção de livros públicos. A essa sumidade, responsável por feitos de tal magnitude, de causar inveja a qualquer tsunami:


JACA-GUEI


-por todos (-as) os que se submetem ao estrelismo, jaquismo, bichismo, burrismo, machismo, cultismo, exibicionismo, achismo e pseudo-perfeccionismo, irmãos...:


JACA-GUEI


Cantemos:


Louva e ajoelha-te

Põe-te a carregar

Os Fardus du senhor

SALVE

Como pesa a Jaca "Santa",

Que assenta-se pesada-mente,

No trono eterno da ociosidade,

Da ogrosidade,

OH!

AVE, AVE, AVE, chester

Peru, glu, glu, glu, glu


SALVE OGUM!


(Autoras: Fernanda Laurito e Lara Jatkoske Lazo)